

AS PALAVRAS QUE VIAJAM PELO MUNDO
Paula Oliveira
As palavras que viajam pelo mundo
não levam malas.
Carregam apenas o peso invisível
do que foi sentido em silêncio.
Nascem pequenas,
num canto do peito,
onde o pensamento hesita
e o coração aprende a falar.
Cruzaram mares antes dos navios,
atravessaram desertos
sem pedir água,
foram ditas em línguas que já dormem
na poeira do tempo.
Há palavras que partiram por amor,
outras por guerra,
outras apenas porque era impossível
ficar.
Elas sabem o caminho das mãos,
o contorno do rosto,
o som exato do nome
dito com saudade.
Viajam nos livros esquecidos,
nos bolsos de quem espera,
nas cartas nunca enviadas,
nos olhos de quem lê devagar.
Algumas chegam cansadas,
com a grafia ferida,
outras chegam inteiras,
como se nunca tivessem sido quebradas.
Há palavras que mudam de forma
para sobreviver.
Trocam letras,
ganham sotaque,
mas guardam o mesmo sentido
no fundo da voz.
Quando encontram abrigo,
ficam.
Constroem casa no papel,
acendem luz no verso,
ensinam o silêncio
a respirar.
Outras seguem.
Não foram feitas para ficar.
Precisam continuar
para não morrer.
As palavras conhecem fronteiras,
mas não obedecem a nenhuma.
Passam por muros,
escapam por frestas,
entram onde o medo não alcança.
São pontes invisíveis
entre quem escreve
e quem precisa ler.
Uma palavra pode salvar uma noite,
outras afundam um dia inteiro.
Há palavras que são mãos,
há palavras que são lâminas.
Mesmo assim,
continuamos a dizê-las.
Porque o mundo,
sem palavras,
seria apenas um ruído
sem memória.
Quando viajam,
levam consigo
um pedaço de quem as escreveu.
E ao chegarem,
devolvem esse pedaço
transformado.
Talvez seja isso
que chamamos de encontro.
As palavras não voltam iguais.
Nem nós.
CTA/FLAL/POESIA/P051

DE MALAS PRONTAS
Jairo Aragom
De malas prontas,
partiu.
Nem se despediu.
Enquanto caminhava pelas esquinas,
olhou os rostos das pobres meninas:
das que estavam a chorar
e das que estavam a sorrir.
Também viu os guris
que estavam a pedir…
Nada mais cabia
naquela mala apertada.
Mas cabia
naquele coração apertado.
Puxou do bolso
um papel amassado
e anotou tudo,
mesmo com a alma amargurada.
Seguiu, então,
seu caminho descompassado…
Espalhou pelo mundo
a dor dos olhos tristes e embaçados,
a dor dos pobres moribundos,
dos que nunca foram embalados
em letras firmes
e papéis amarrotados…
Num guardanapo
de bordas douradas
— aquele que limpara
sua boca calada;
ficaram presas
palavras aladas.
O guardanapo guardou
o que o poeta não falou,
mas anotou…
E assim,
suas palavras viajaram
pelo mundo —
e fora dele…
CTA/FLAL/POESIA/P047

SINFONIA
Elisabete Brito
Rodopia no ar uma doce melodia embalada
pelo vento, dançam os pássaros esta canção
que sussurra os segredos do rio que corre
esgalgado, sempre apressado,
quando o silêncio da aurora abraça o mundo
entorpecido sob as cordas dormentes
do violino que entoa na alma a harmonia
de um tempo que era colo e partiu.
Em cada verso caem flores para colorir
as batidas do coração e assim se faz história.
Em cada verso a esperança
que empurra o compasso dos dias
para a ponte que atravessa o abismo
porque a música jamais desiste,
pelos caminhos semeia girassóis
que aconchegam os risos inquietos e
sob a cadência da lua, ondulam as sombras,
fulgem as estrelas e adormece a noite fria
baloiçada pelo canto de amor e serenidade
que as notas pacientes entoam
saciadas do fulgor da vida que abraça
o sonho que se eleva para lá das nuvens,
ressoa a alma e vibra o corpo
em cada acorde que se derrama no coração.
Quando a alvorada despertar peneiram-se
os sentidos das palavras que caíram no peito
entre as entranhas do silêncio e assim
repousa o mistério discreto, sem alarde
e é tempo de cingir o intenso canto da vida
que segue como o bailar das ondas do mar,
sussurram segredos descalços, beijam
o instante e perenes encontram-se na emoção.
CTA/FLAL/POESIA/P049