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Contos
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SOBRE AS MÃOS QUE ME LEVAM

Autoria de Branca Boson 

 

Largado em um banco azul sinto a brisa vinda de algum lugar misterioso e que mexe com minhas páginas. O som ambiente é o de muitas vozes misturadas. De tempos em tempos, uma delas se sobrepõe em avisos.  Humanos se sentam e se levantam, inquietos, nos bancos ao meu redor, mas nenhum se atreve a me tocar. Uma mulher me fita insistentemente. Aproxima-se e decide me envolver em suas mãos e me colocar com pressa em uma bolsa, onde vou me misturando a frascos e batons nos pulos da sua corrida. Fico ali até que aquelas mãos me procuram e me retiram da bolsa. Posso perceber que estou dentro de um avião. Os seus gestos não são delicados, minhas páginas são viradas com impaciência. A leitura é desatenta.  Demora-se um pouco mais naquela parte que sempre comove as mulheres. É incrível como provoca exatamente o mesmo efeito, independentemente de quem me lê, desde que seja uma mulher. Ela me fecha bruscamente. Sinto gotas molhando minha capa. Então, me coloca no compartimento do banco à sua frente e acabo por cochilar com o som monocórdio do jato. A batida das rodas no chão me desperta. Ouço os sons da aeronave se esvaziando: malas sendo retiradas dos compartimentos, reclamações, recados no alto-falante, que ninguém presta atenção. Logo, silêncio. Fui esquecido novamente. Barulho de aspiradores ao longe, mãos resolutas me encontram e me giram para todos os lados, numa avaliação apressada, e me guardam no bolso de um casaco felpudo. Desço as escadas e viajo às cegas pelo solo daquele novo lugar. Sinto as unhas grandes tamborilando em minha capa, checando minha presença. É outra mulher quem se interessa por mim. Ela me tem mais carinho, talvez pela falta do receio de que alguém reclame a propriedade.  Pela temperatura das suas mãos, sei que está frio lá fora, mas estou bem acomodado naquele agasalho que caminha, a passos firmes, para um quarto de hotel não muito longe do aeroporto. Entra. Ouço o trânsito pesado de uma grande cidade lá fora. Na TV ligada, falam uma língua que não entendo e me distraio tentando decifrá-la. Estou em qualquer lugar em que nunca estive. O chuveiro liga e desliga em poucos minutos, e o brilho suave da luz de cabeceira ilumina minhas páginas. Deitada na cama, com a toalha enrolada na cabeça, ela pousa em mim impressionantes olhos azuis. Começo a tarefa que mais adoro: listar as sutis alterações que acontecem no rosto de quem me folheia. E os humanos acreditam que só as suas bocas falam. Nas pequenas vibrações da pálpebra, no leve tremor da íris, nos movimentos de abrir e fechar da pupila são contadas histórias admiráveis, e que nenhum livro encerra. Posso passar muitas e muitas horas lendo nos olhos de alguém o que leem em mim e, ainda assim, me assombrar com a potência da narrativa. Cada pessoa é uma nova tecitura, tão complexa quanto a transformação dos símbolos impressos em minhas folhas em pensamentos. Esta mulher me deixa deitar em seu peito e sentir a batida suave de seu coração. O ressonar nina o meu sono satisfeito. Acordo no silêncio absoluto de um móvel duro. Onde estão meus olhos azuis? Nenhum som além do trânsito lá fora, junto ao de jatos, que estão ainda mais intensos. Fui deixado novamente. A porta se abre. Alguém cantarola naquela mesma língua misteriosa e me joga na gaveta escura do móvel em que estava. Fico ali, ressentido, até que em uma noite qualquer sou descoberto por um homem, que me abre no meio. Quem pode começar uma história assim? Ele parece procurar em minhas páginas o que anseia há muito tempo. Quando, afinal, fica convencido a me ler, seus olhos parecem me compreender mais do que qualquer outra pessoa que conheci até então. Seus lábios falam comigo sem emitir qualquer som – ele tem o hábito cada vez mais raro (e adorável) de mexê-los enquanto lê. Aliás, nunca vi lábios iguais. Ora se apertam, ora se abrem e ficam assim até a língua ser obrigada a molhá-los. Os dedos, volta e meia, chegam aos dentes, que os mordiscam em aflição para depois se mostrarem em risos altos e satisfeitos. Lê até o sono chegar, o que se percebe pela demora nas piscadas. Resiste a dormir. Passa minhas páginas lutando contra os próprios limites. Até que cede, mais ou menos no ponto em que me abriu quando nos conhecemos, me fecha e pousa, com carinho, no móvel da minha já esquecida prisão. Acaricia a minha capa, agradecido. E sou eu que lhe diria obrigado, se pudesse. Apaga a luz. Assim que o sol atravessa a janela aberta, e me ilumina, sou segurado pelas mãos desse meu novo dono, que me dá um beijo de bom dia e me coloca dentro da mala. Passo um tempo bom entre macias camisas e fofas meias, sem medo de ser esquecido mais uma vez. Quando me encontro de novo com o seu olhar amoroso, estamos na praia. Posso ouvir o som ritmado das ondas e o cheiro que, confesso, me dá arrepios. É maresia. A música, ao longe, harmoniza com o mar. Ele traz à boca, de tempos em tempos, o copo com um pavoroso enfeite que esconde seu rosto enquanto sorve pelo canudo um líquido azul. Parece mais feliz, e eu também ficaria se ele tirasse os óculos escuros. Queria ver melhor seus olhos expressivos. Não me lê da mesma forma que na noite passada porque outras coisas competem com a sua atenção. Ora uma batida que balança seu corpo e o meu. Ora a contemplação do mar ou de alguém que passa. Não tem problema. Há páginas o bastante para mais tarde. Quando me leva para o quarto, afinal, me preparo para uma noite como a primeira, mas sou deixado em um ambiente escuro e silencioso. Espero ansioso até que volte, só que não está sozinho. Uma mulher também me toca, depois de longos minutos de gemidos e farfalhar de lençóis. Falam sobre mim, e o pior acontece. Sou oferecido a ela, como garantia de que voltarão a se encontrar, e levado para longe dele. Antes de conseguir me recuperar do baque da separação, me vejo em uma sala espaçosa, ao lado de uma poltrona iluminada por um abajur de pé. Os sons abafados de uma avenida frustram as minhas esperanças de que não tenha ido para tão longe. Em nada me lembra o barulho do mar. As vozes, desta vez, dizem coisas familiares, mas isso não me consola. Preciso me dar por satisfeito por estar à vista, em uma sala, e não escondido no quarto. Guardo a esperança de que serei facilmente encontrado, se ele vier. Atento-me para os sons à minha volta: a voz de uma criança e, depois, de um homem, mas não. Não é ele. Será que nunca mais vou ver meu querido leitor? Mais tarde, quando o silêncio domina a casa, ela vem se sentar e me pega nas mãos. Tem lindos olhos castanhos, com algumas partes esverdeadas, unhas curtas e mãos macias. Começa pelas primeiras páginas, lendo inclusive os meus dados catalográficos. Nem parece aquela de quem ouvi tantas frases obscenas. Elegante, calma, sinto ganas de tirá-la daquele controle. Mas a sua disciplina me aquieta e sua fidelidade me conquista, pois todos os dias, à mesma hora, ela me dedica uma hora e nem um minuto a mais. Não deixo de sentir falta da intensidade do seu amante - do nosso amante – mas a constância também pode ser sedutora. A casa, organizada como ela, mantém rotinas que acabam por domar minha ansiedade. Todos os dias depois do almoço, que acompanha a algazarra da criança e a conversa polida do casal, assim que se despede, até da cozinheira, o silêncio reina e ela se senta na poltrona, acende a luz da luminária e me pega. Eu fito aqueles olhos de cor mutante, a pele impecável, o cabelo bem preso, atento a um sinal qualquer que denote a emoção que sei causar. Nem naquela parte. Não entendo como consegue se conter tanto assim, sabendo, como sei, da sua capacidade de se deixar levar pelas sensações. Gira levemente a cabeça, ao ler a página da esquerda. As narinas tremem discretamente, sem relação alguma com partes dos meus textos. As pupilas se retraem e se expandem no ritmo da luz tênue da janela, que muda com o esvoaçar das cortinas. Tento entender como ela pode ser a mesma mulher da noite quente no quarto do meu querido leitor. Talvez, não seja. Quem sabe, talvez, essa mulher ainda esteja lá, com ele, se deitando em gemidos ao som do mar. O que aconteceu é que naquele dia ela aceitou o presente e me levou até seu quarto, mas me repassou a outra pessoa, uma amiga, que ficou sozinha depois do encontro arrebatador que mudou seus planos. Eu fui um presente de consolação para diminuir a sua culpa. Então, eu fui colocada na mala dessa esposa, mãe dedicada e amiga traída, que voltou para casa sozinha. Crio essa história para pôr fim à ambiguidade e enterrar de vez minhas esperanças. E me acalma a verdade inventada. Até que em um dia como outro qualquer, depois da casa silenciada, ela não vem para a poltrona. Muda de direção porque a campainha toca. Estranho a ansiedade que toma conta dos seus passos desde lá de dentro até chegar à entrada. E o que se segue depois da porta aberta é a confirmação de que sou melhor em guardar enredos do que em criá-los. É ele! Cumpre o prometido. Aqueles cabelos sempre presos em impecável coque são libertos em ávidos puxões, ao mesmo tempo em que a figura composta e retraída se desprende em arrebatamento. Agora a reconheço em seus gritos abafados e frases entrecortadas de paixão.  A partir desse dia, as tardes tranquilas da casa ordeira se transformam na noite daquele hotel de praia. A cena reveladora se repete, com menor ou maior intensidade, na sala ou em outro cômodo da casa, em intervalos regulares de tempo. O arrastar de móveis e a queda de objetos acompanham sessões cada vez mais imprudentes de encontros. Ela mata a saudade enquanto espero paciente pela minha vez. Quando ele virá reivindicar a minha posse? A demora em ser notado me coloca em um estado a que me resignei: esquecimento. Fecho-me a tudo ao redor e, por isso, demoro um pouco a perceber quando os sons mudaram, de paixão para luta. Os dois homens se encontraram, aquele que mora e aquele que visita. O escândalo, que tinha começado no quarto, se espalha pelo apartamento e se aproxima de mim. Berros, golpes secos, ameaças. Chegam. Sou empunhado. E se juntam a força da mão humana e a aresta afiada da minha capa dura em um voo até uma têmpora. Como é frágil. Eu não sofro nenhum dano, mas é evidente a gravidade do que causei. Um silêncio horrível explode, pondo fim a toda a cacofonia. Sou devolvido para a mesinha em um movimento tão lento, que parece o desejo de que tudo congele, volte e termine diferente. Fui usado como arma. Fui a vítima inanimada de uma violência. Sinto em minha capa a umidade quente do sangue de alguém.

Em todas as minhas andanças pelo mundo, passei por muitas mãos, ouvi muitas línguas e sons, senti diferentes brisas. Conheci diversas maneiras de compreender as mensagens em mim, ao me ler espelhado em olhos de todas as cores e formatos. Risos e lágrimas, por vezes em trechos diferentes, outras vezes nos mesmos, apreciados lentamente ou com voracidade. Páginas puladas, relidas, dobradas nas pontas, recitadas em voz alta e em diversas traduções. Folhas que provocaram indignação por invadir e, até mesmo, se apossar de universos cognitivos. Por outros, lidas com mansidão. Partes de mim escancaradas, partes presas em grossos marcadores até serem assimiladas. A capacidade de emular infinitas cosmovisões a partir de um limitado conjunto de palavras, por mais que sejam as mesmas - ou pareçam ser as mesmas - me coloca na posição privilegiada de ler o mundo. Palavras que penetram o íntimo de cada ser humano e modelam o inefável. Mais que isso: alteram, ampliam e o modificam. Não conheço humanos que consigam fazer isso, a não ser que tenham em suas mãos um livro. E mesmo assim, não pude antecipar esse meu uso indigno.

Ganho camadas de poeira sobre a mancha vergonhosa, em cima do móvel da casa, que perdurou silenciosa até começar a ter seus móveis retirados. Eu me junto a outros livros, que nem imaginava que existiam naquele lugar. E assim ferido, percebo o quanto fui feliz em toda aquela minha vida livre, ímpar, viajando de mão em mão, conhecendo uma diversidade de humanos neste grande planeta. Seres que o tempo e as experiências envelhecem. Nunca imaginei que isso aconteceria aos livros também.

Passo a viver com as minhas capas indecentemente coladas às de outros livros, dividindo a espera triste de ser escolhido e voltar a sentir o calor de mãos. Eu, que amei meus leitores, fui usado injustamente para ferir e me tornei um decadente condenado nas prateleiras de um sebo qualquer.

 CTA/FLAL/CONTO/C012

 

 

DO SILÊNCIO AO BARRO

Alexandra Ferreira

 

Ligo o torno quando o sol se anuncia entre as copas bojudas dos pinheiros mansos que povoam o bosque. O céu cobre-se com um manto azul-claro com espessas riscas cor-de-fogo. Observo a paisagem que conheço desde que nasci. A natureza exibe a costumeira harmonia e paz. Hoje, pela primeira vez, estou em sintonia com esta tranquilidade que me afrontou durante os últimos meses. A desconstrução de um homem que nunca existiu foi uma longa caminhada.

Conheci-o na feira de artesanato. Acompanhava a comissão organizadora. Magro, ombros largos e rosto alongado, destacava-se em qualquer multidão. Quando os nossos olhos se cruzaram, as minhas mãos pararam de moldar o barro na roda de oleiro. Olhou-me com audácia. Segundos depois, prosseguiu desinteressado. Este comportamento — desejo e desinteresse — padronizou a relação que mantivemos ao longo de quase dois anos e teve um efeito pernicioso em mim.

Bastou um mês para me instalar no apartamento requintado que contrastava com a simplicidade do meu. Sem rodeios, arrumou a minha vida numa mala e guardou-a no armário do quarto de vestir. Vestidos, sapatos, carteiras, joias impostas sem modéstia. Deixei de me reconhecer na imagem refletida no espelho. Os dias eram planeados, desconsiderando-me. Deixei de ser eu, tornando-me numa mulher sofisticada que deambulava ao seu lado. Estava apaixonada pelo homem que me despia com o olhar assim que entrava em casa e me amava antes de chegarmos ao quarto.

Nas primeiras semanas ainda fui ao atelier. Saía depois do pequeno-almoço e regressava a tempo de me alindar para a sua chegada. Certa vez, entusiasmada com o molde de uma peça, trabalhei até a luz escassear. Não precisei de ver as horas para perceber que era tarde. Desliguei o torno, tirei o avental, lavei as mãos e fechei a porta do atelier. Sabia que esse atraso me traria problemas.

Desafiei o tempo na curta distância até casa. Estacionei ao lado do Porsche cinza-ártico. Saí nervosa do elevador e abri a porta. Aguardava-me sentado no sofá. Ouvia Mozart.

— Posso perguntar onde esteve?

O tom de voz fez-me estremecer.

— Estive no atelier.

Assumiu um ar ainda mais frio enquanto inspecionava as minhas mãos. Vi o barro incrustado nas unhas e corei, envergonhada. Ajoelhei-me junto aos seus pés e pedi desculpa. Afastou-me secamente. Levantou-se e, já perto da porta, informou:

— Não espere por mim. Chegarei tarde.

Suspiro resignada e vou até à cozinha. Deito água na chaleira. Olho de novo para a luxúria da vegetação. Rememoro essa madrugada: entrou no quarto e tomou-me sem cuidado. Depois, virou-se e adormeceu. Fiquei imóvel, com o corpo rígido e a respiração presa, como se ainda estivesse a acontecer, até ao raiar da aurora. Acordou muito bem-disposto. Convidou-me para almoçar. No restaurante entregou-me um ramo de rosas-chá e um fio com uma medalha da árvore da vida. Comemorámos os primeiros seis meses. Um dos melhores momentos que partilhámos. O apito avisador da água a ferver assusta-me. Pego no bule. Coloco hortelã, erva-doce e gengibre. Tiro um iogurte do frigorífico. Preparo uma torrada. Estou inquieta. Sinto-me irritada, desapontada. Como foi possível ter-me subjugado? A fronteira entre os dois tinha-se apagado há muito. Encho uma caneca de chá. O aroma a hortelã preenche o espaço. Fecho os olhos e absorvo este odor. As mãos deslizam pelo tronco suavemente. Param no ventre, abraçam-no. Uma lágrima escorre pela face direita até aos lábios, que se abrem para a receber. Bebo um trago de chá e sinto a alma um pouco acalentada. Ingiro os alimentos sem os saborear. Vejo um par de pardais pousados no parapeito a namoriscar. Observo-os estarrecida. A fêmea exibe um ar de felicidade. Entristeço-me. Também já me senti assim. Pouso a chávena na pia. O casal bate as asas e voa em círculos até desaparecer.

Sento-me de novo no banco junto ao torno. Ligo-o e contemplo o barro a girar. Moldo-o até ganhar a forma da peça que pretendo. Contemplo-a angustiada. Levanto-me e deambulo sem rumo pela cabana. Esgotada, sento-me no tapete, encostada ao sofá. Adormeço. Acordo com os raios de sol sobre o rosto. Sinto o corpo dorido e o estômago a reclamar. Ergo-me com esforço. Vou até à cozinha. Aqueço sopa, corto duas fatias de pão saloio e um tomate em gomos. Encho um copo de água e parto em quartos uma maçã Golden. Contemplo a beleza da natureza enquanto degusto o almoço no alpendre.

O casal de namorados regressa; quer partilhar a minha refeição. Divido o pão com eles. Observo a disputa pouco romântica pela comida. Esta cena transporta-me para um acontecimento na véspera do nosso primeiro aniversário: um cliente italiano teve o descaramento de me cortejar durante um jantar. Ele ficou tão irritado que mandou o motorista levar-me a casa antes da sobremesa.

Nessa noite, como em tantas outras, regressou tarde. Vinha irado. Entrou no quarto e tocou-me sem cuidado. Depois, virou-se e adormeceu. Senti-me violada.

Permaneci no chão, de joelhos, com o rosto escondido pelos cabelos desalinhados até ter a certeza de que dormia. Gatinhei até ao chuveiro. Deixei que a água me lavasse o corpo e a alma.

Quando acordou, olhou-me e, desagradado com as olheiras, disse num tom de voz agressivo:

— Vou pedir para lhe marcarem uma sessão de massagem e tratamento de rosto. A minha secretária dar-lhe-á os detalhes. Seja pontual!

Tinha combinado almoçar com a Dora. Sentia-me tão fragilizada que não tive coragem de telefonar. Enviei uma mensagem curta e vaga. Após essa noite, o carinho foi destronado pela arrogância. Já não fazíamos amor, apenas sexo, quando e como ele bem desejava. Mesmo assim, tentei conquistá-lo.

Continuei a conviver com a frieza da sua família, o repúdio da sua mãe, que nunca escondeu a antipatia pela “provinciana”. O olhar de cobiça dos homens nos jantares de negócios, em que me exibia com vestidos justos e decotados. O olhar de compaixão das mulheres que tudo compreendiam.

Os pardais terminam a refeição. Batem as asas e voam lado a lado, ultrapassando o desacato. É hora de esticar as pernas e regressar ao trabalho. Calcorreio por entre flores campestres até ao final da estrada de terra batida e volto. Sento-me na cadeira e contemplo a peça que criei. Não é a minha melhor produção, mas representa o recomeço, o renascer como artesã ao fim de dois anos.

Trabalho arduamente. A tarde termina e a noite instala-se. A lua invade a minha privacidade. Sinto os braços e ombros doridos. O cansaço de um dia longo e revigorante. Levanto-me e caminho até ao cadeirão no alpendre.

Sinto um pontapé e uma mistura de emoções. A dor do último dia da nossa vida ainda está presente. Esta gravidez não foi planeada; resultou de uma noite de paixão e amor. Tinha sido no seu aniversário. Comemos e bebemos melhor, numa festa bem mais agradável do que antevia. Em casa, foi meigo, doce, apaixonado e amámo-nos como se fosse a primeira e a última vez. Acordámos abraçados como nas primeiras vezes que partilhámos a cama.

Os dias e semanas seguintes foram de harmonia. Acreditei que era um recomeço. Passado um mês, descobri que estava grávida. Fiquei feliz e mal pude esperar pela sua chegada para lhe dar a notícia. Estava confiante. Talvez fosse o impulso para o casamento.

Preparei o seu gin preferido e um sumo de laranja para mim. Vesti umas calças brancas e a camisola azul-turquesa de que gostava. Recebeu a notícia com agressividade. Quando tentei abraçá-lo, empurrou-me. Caí no chão. Insultou-me. Acusou-me de ser interesseira e de usar um golpe bem antigo para o obrigar a casar. Deixou bem claro que não pretendia dar esse passo. Trataria do aborto de imediato. A sua secretária entraria em contacto comigo. Saiu.

Ergui-me, cambaleei até ao quarto de vestir, peguei na mala e vim para aqui.

A quietude da cabana resgatou-me das cinzas. Moldar o barro devolve-me a esperança. O conforto das calças de ganga, da camisa de flanela de xadrez vermelho e preto e das sapatilhas acarinham-me.

O ruído deste silêncio dá-me paz. Observo a lua que se anuncia entre as copas bojudas dos pinheiros mansos que povoam o bosque. E sinto que esta criança há de devolver-me a felicidade.

 CTA/FLAL/CONTO/C013

 

 

                                                 ENTRE O RUÍDO E O OLHAR

                                                                   Maria Leonilda Pereira

 

Há momentos que nos mostram mais do que queremos ver.

Uma pessoa rodeada de gente — e ninguém lhe fala.

Dias seguidos no mesmo café. Gente que passa. Cabeça erguida, olhos atentos… mas

ninguém a envolve no olhar.

Toque? Beijos? Escassos. Talvez por pena. Por respeito pelo que foi — ou pelo filho?

Um abandono que inquieta. Ou será autoabandono?

Fico a observá-la, em silêncio.

Um deserto onde parece já não haver esperança de oásis.

Procuro-lhe os olhos — castanhos, mas sem brilho. Olheiras fundas, marcadas pelos

anos.

Que idade terá? Importa sabê-lo?

Importa o presente: roupas gastas, pouco cuidadas, mãos por tratar, sinais de um descuido que vai além do corpo.

Dizem que foi rica. Ela própria o repete, como quem se agarra ao que já não é.

Talvez tenha sido sempre assim — distante, orgulhosa, fechada.

Talvez tenha construído, sem dar conta, o seu próprio isolamento.

E agora… vive nele.

 

Ainda assim, custa-me o contraste: as gargalhadas à volta, o ruído, a vida em movimento — e aquela presença suspensa.

Como sair deste silêncio?

Como ajudar?

Desvio o olhar. Tento pensar noutras coisas. Mas volto.

Imagino-a em casa: televisão ligada, sofá gasto, um corpo que repousa mais do que vive. Ou talvez à janela — a ver passar a vida dos outros, como quem ainda quer pertencer.

E, de repente, percebo: não são os grandes acontecimentos que nos despertam.

São estes instantes banais — uma mesa de café, vozes cruzadas, risos dispersos — onde algo nos diz que há um desencontro.

Foi assim que me senti. Rodeada de conversas leves, dei por mim a olhar para quem menos falava. Uma mulher. Silenciosa. A memória já fragilizada — mas o olhar ainda atento.

Enquanto à volta se falava de trivialidades, ela permanecia ali. A fruir do aroma do café? Da doçura do pão de deus?

Atenta a quem chega. Presente. À espera de novidades?

Mais presente do que todos nós.

E algo em mim se inquietou.

Como é possível estarmos juntos num espaço de rotina e não nos escutarmos?

Será possível termos tempo — e gastamo-lo no acessório?

Aquele momento não era sobre café. Era sobre presença. Sobre dignidade.

Sobre o valor de estar. E, no entanto, poucos a viam. Ou talvez vissem — mas não quisessem sentir.

Aquela figura solitária, que implora sem pedir, enerva-me e provoca-me compaixão.

Ocorrem-me soluções, propostas, desafios que já ensaiei e ela rejeitou.

Vivemos numa pressa constante.

Preenchemos o vazio com ruído.

Falamos para evitar sentir.

Opinamos para não escutar.

E assim, pouco a pouco, vamos desaprendendo o essencial:

Escutar.

Estar.

Cuidar.

A maturidade traz-nos um outro olhar.

Não para julgar — mas para escolher.

Começamos a perceber que nem todas as conversas acrescentam. Que há presenças que não o são.

Quantas vezes estamos rodeados — mas profundamente sós.

E, no entanto, também somos nós os distraídos.

Os que não veem.

Os que adiam.

Os que dizem “depois”.

E o “depois” nem sempre chega.                                                                                     

Talvez o desafio não seja apontar o erro aos outros. Mas reconhecer em que momentos também nos afastamos do essencial. Porque a vida não se mede em palavras ditas — mas em presenças sentidas.

E naquele café, entre o ruído e o silêncio, percebi algo simples — e exigente: estar é um ato de coragem.

 Amar… exige atenção.

CTA/FLAL/CONTO/C014