

O FUTURO DA POESIA
Jairo Aragom
Outro dia acordei com uma preocupação séria: o futuro da poesia. Não era uma preocupação pequena, dessas que se resolvem com café forte e pão na chapa. Era uma inquietação internacional. Uma inquietação quase diplomática.
Peguei o celular e comecei a pesquisar. Descobri que na Polônia os poetas são respeitados como quem respeita um velho professor. Lá, viveram nomes como Wisława Szymborska e Czesław Miłosz, que ganharam até prêmio Nobel. Imagine isso: um poeta ganhando Nobel enquanto aqui o máximo que acontece é ganhar um “parabéns, muito bonito” no grupo da família.
Na Rússia então, nem se fala. O povo cita versos de Alexander Pushkin como quem cita placar de futebol. Dizem que a poesia lá é coisa séria, quase religião. No Chile, terra de Pablo Neruda, o poeta vira patrimônio nacional. O sujeito escreve um verso sobre o mar e de repente ganha casa-museu, busto na praça e excursão escolar. Continuei minha pesquisa e descobri outra coisa curiosa: na Noruega o governo paga bolsa para escritor. Bolsa! O poeta recebe dinheiro para escrever. Confesso que parei alguns minutos olhando para o teto.
Aqui no Brasil, se o poeta disser que vai viver de poesia, a família imediatamente sugere três coisas: concurso público, terapia ou um curso técnico em alguma coisa mais segura. Mas também não posso reclamar muito. Outro dia mesmo me inscrevi numa promoção de uma empresa de ônibus. A proposta era escrever um poema sobre o tal “Caminho das Flores”. O primeiro lugar ganha quinhentos reais, o segundo trezentos e o terceiro duzentos. Não em dinheiro. Em vouchers para comprar livros. Confesso que, para um poeta, isso é quase uma fortuna.
As grandes editoras, é verdade, andam cautelosas. O mercado tem suas contas e seus medos. Poesia vende pouco. O mercado gosta de livros que rodam rápido, como ônibus em horário de pico. Poema, ao contrário, anda devagar. Às vezes para. Às vezes senta na calçada e fica olhando a vida passar. Mas, espalhadas por aí, existem pequenas editoras independentes — quase sempre movidas mais por paixão do que por planilhas. São elas que acolhem poetas iniciantes, publicam livros improváveis e insistem em acreditar que um bom verso ainda merece nascer em papel. Para muitos poetas, essas casas pequenas acabam sendo uma espécie de abrigo, quase um refúgio literário.
Enquanto pensava nisso, lembrei de outra coisa. A poesia brasileira nunca viveu exatamente dentro das editoras. Ela viveu nos jornais, nas esquinas, nas músicas, nos bares, nos cadernos escolares, nas serenatas, nos saraus improvisados. Viveu também na teimosia. Porque o poeta brasileiro é uma criatura curiosa: escreve, mesmo sabendo que o mundo talvez esteja ocupado demais para ouvir.
Talvez, por isso continue escrevendo. Talvez porque a poesia nunca tenha dependido totalmente do mercado, mas dessa estranha necessidade humana de dizer o indizível.
Fechei o celular e fui caminhar um pouco. Passei por um muro pichado com um verso torto de amor. No ponto de ônibus alguém escrevia um poema no caderno. E um rapaz recitava rap para dois amigos que pareciam ouvir com muita atenção. Foi então que entendi uma coisa. Talvez a poesia não esteja em perigo. Talvez ela apenas tenha mudado de endereço.
CTA/FLAL/CRÔNICA/CR033

O ESSENCIAL NÃO SE EXPLICA
Maria Leonilda Pereira
Escrever sobre literatura infantil e juvenil traz-me o sabor das histórias que ouvia à lareira.
O cair da noite oferecia-me aventuras reais ou fantásticas. Por vezes, surgia o medo — lobos, seres malvados —, mas eu permanecia, até os olhos pedirem descanso.
Sem televisão, com poucos livros, eram a conversa, as histórias e as canções que alimentavam o convívio.
Creio que foi aí que nasceu o meu gosto pela leitura. Mal aprendi a juntar letras, corri para os livros da carrinha da Gulbenkian, biblioteca itinerante que levava possibilidades às aldeias. Criou leitores improváveis — e talvez escritores. Porque um escritor começa, quase sempre, por ser leitor.
Lembro-me de livros que me ficaram — O Meu Pé de Laranja Lima, pela dor e ternura, ou as coleções de Uma Aventura, que despertavam o gosto pela descoberta e pela ação
O gosto foi ganhando forma e, na adolescência, escolhi seguir Letras. Na Faculdade, fiz um trabalho sobre literatura infantil. Li tudo o que havia: fadas, princesas, príncipes, aventuras.
O universo era mais reduzido, longe da diversidade atual
Já então identifiquei aspetos que considero essenciais — não apenas na literatura infantil e juvenil, mas em toda a literatura: impacto, sensibilidade e uma certa dose de fantasia.
Hoje, a criança e o jovem continuam a procurar isso — mas também desejam fruição, identificação e verdade. O livro já não se limita à moral explícita das histórias tradicionais, como Branca de Neve, onde a beleza, a perda e a redenção seguiam um modelo previsível.
Os autores contemporâneos escrevem a partir do quotidiano, com linguagem acessível, sensível e próxima. Abordam temas atuais e chegam ao leitor com autenticidade.
Livros para a infância não precisam de explicar tudo. Precisam de tocar.
Há fenómenos como Harry Potter, que atravessam gerações, permanecem e se tornam referências pessoais e coletivas.
Ser escritor é observar, escutar e transformar — com respeito, verdade e intenção. Não para ensinar de forma direta, mas para acrescentar algo ao leitor.
Porque, no fundo, o essencial não se explica.
Recordo O Principezinho, obra que nos atravessa:
“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”
CTA/FLAL/CRÔNICA/CR039

O BANQUETE DAS ESFOMEADAS
Karoline Moraes
Ele chega no horário, dá um beijo carinhoso, pergunta como foi o dia. Ela sorri e serve o jantar. Ele é uma boa pessoa, cumpre seu papel: trabalhador, honesto, presente. O carinho entre eles é tranquilo, um afeto que não surpreende. Um amor seguro, como uma xícara de chá morna reconfortante, sem risco de queimar a língua.
Mas o coração, às vezes, anseia por um calor mais intenso. Então, quando as luzes se apagam, ela vai ao seu encontro secreto. Uma viagem que é só dela. O vilão da vez não importa. Todos compartilham o mesmo perfil: homens difíceis, que decidem destinos antes do café da manhã, mas todos, sem exceção, guardam o mesmo ponto fraco: ela.
Não é a violência que a atrai, nem a crueldade gratuita, tampouco as cenas explícitas de sexo. O que acelera o pulso, rouba o fôlego e a faz virar páginas sem perceber o tempo passar é a lealdade feroz. É o homem que, diante da ameaça, afirma sem hesitar que qualquer dano a ela será cobrado com uma fúria capaz de atravessar gerações. É quem desafia a lógica, o perigo e a própria ruína para mantê-la a salvo. Um amor que não respeita leis, moral ou sobrevivência que escolheria o colapso do mundo antes de permitir que um único fio de cabelo dela fosse ameaçado.
No cotidiano, o afeto se divide entre o supermercado e o trabalho. É real, verdadeiro, mas diluído em tarefas e preocupações.
Nas páginas da história, o sentimento é uma força da natureza. É posse que sufoca, ciúme que incendeia cidades, obsessão que redesenha mapas de poder apenas para mantê-la ao alcance de seu braço. Um apego sem limites, uma atenção absoluta que faz qualquer pessoa se sentir… única.
Quem pode culpá-las? Quem ousa julgar a fome de quem sempre se alimentou de migalhas?
Não é que o amor estável e bom, do homem real, honesto, bom pai, não baste. Ele sustenta a mulher racional, a cidadã, a mãe. Mas há uma fera adormecida no ventre da mulher que foi ensinada a ser apenas “boa”. Uma fera que não quer ser amada: quer ser essencial. Quer ser a razão, a fraqueza, o ponto de ruptura de alguém tão poderoso que só nela encontra seu limite.
O dark romance é o banquete clandestino. É onde, em segurança, ela experimenta o sabor perigoso de ser tão desejada que até um demônio se ajoelha. Onde é, por algumas páginas, insubstituível. Não bela como revista, mas como uma arma rara, como a chave única de uma fortaleza impenetrável. Poderosa o suficiente para fazer tremer quem nunca temeu nada.
Não é a fantasia de ser ferida, mas de ser tão valiosa que a maldade do mundo se curva para preservá-la. O amor exagerado e obsessivo é o espelho invertido da negligência cotidiana. É o grito silencioso de um desejo antigo: o de ser escolhida sem medida, com lealdade absoluta.
CTA/FLAL/CRÔNICA/CR038